Gaúchos migram para Roraima em busca de um lugar pra viver sem chorar
A chegada dos gaúchos ao estado de Roraima foi um processo que se iniciou, mais significativamente, a partir de meados da década de 1970. Vários fatores contribuíram para que essa força migratória fosse capaz de levar milhares de pessoas a atravessar o Brasil, do extremo sul ao extremo norte, em busca de uma vida melhor.
A sucessiva divisão das terras entre os descendentes das famílias no Rio Grande do Sul foi o principal motivo para que o gaúcho abandonasse o seu lar. Muitos deixaram a vida no campo, mas outros foram atrás de terras em outros estados.
O território de Roraima passou a ser notado pelo migrante gaúcho quando o governo federal começou a incentivar a ocupação espacial por meio de programas implantados para esse fim. A forte atuação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) nos últimos 40 anos foi decisiva para a chegada de agricultores não só gaúchos, mas principalmente nordestinos. De lá para cá, segundo dados do Incra, foram criados 67 projetos de assentamento e mais de 20 mil famílias assentadas, muitas delas provenientes de outros estados.
Em 1975 nascia o Polororaima, um dos projetos do Programa Polos da Amazônia, criado com o objetivo de implantar estradas, desenvolver a pecuária, pesquisar os recursos minerais e expandir o comércio com a Guiana. Foi com esse projeto que a BR-174, que liga Boa Vista a Manaus, ficou pronta. Essa importante ligação viária de Roraima com o restante do país também foi motivo da chegada dos migrantes.
E você, que não conhece Roraima, está convidado a ser feliz neste lugar
Um fato que demonstra o quanto se incentivava a migração a Roraima foi o discurso de posse do governador nomeado para o território federal em 1979. Ottomar Pinto disse em certo trecho do discurso:
“Que venham, sem demora, nossos irmãos do centro-sul e do nordeste. Que tragam seus instrumentos de trabalho e seu vigor produtivo.”
E foi com este vigor produtivo e seus instrumentos de trabalho que o atual Consultor de Planejamento do Instituto de Terras e Colonização de Roraima (Iteraima), Osmar Hentges (64), chegou ao então Território Federal de Roraima em 14 de fevereiro de 1980. Nascido em Três Passos-RS, Osmar trazia esposa, filho e uma vontade de crescer neste lugar.
O diferencial desse exemplo migratório é que Osmar não trazia na bagagem a enxada, o martelo, o machado ou o facão. Ele veio a Roraima com um diploma de Ciências Contábeis. A mão-de-obra era tão escassa naquela época que, segundo Osmar Hentges, só havia três contadores no território, ele foi apenas o quarto. Foi ele também o primeiro funcionário do Iteraima, nomeado contador junto com a criação do instituto em dezembro de 1992.
Não me pergunte aonde fica Boa Vista, siga o rumo do teu próprio coração
Outro exemplo de migrante gaúcho a escolher Roraima como lar foi o comerciante. Nascido em Lajeado-RS, Moacir Rossetti (59) desembarcou em Boa Vista em junho de 1987 com a vontade de abrir um restaurante. Por falta de mão-de-obra para o empreendimento, essa primeira tentativa não deu certo. “Não tinha nem açougueiro”, relata Moacir. O restaurante foi substituído pelo minimercado e açougue e, com a ajuda de Pedro Hahn (49), seu cunhado que chegou em novembro daquele mesmo ano, o comércio sustenta suas famílias até hoje.
Natural de Carazinho-RS, Pedro casou-se com uma roraimense e tem três filhos. “Saímos do Rio Grande do Sul em busca de uma vida melhor e hoje tenho dois filhos formados na Universidade Federal de Roraima (UFRR)”, orgulha-se Pedro.
CTG NOVA QUERÊNCIA
Os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) são entidades associativas presentes em todos os estados do Brasil, e ainda em alguns países, cujo objetivo é divulgar as tradições e o folclore da cultura gaúcha à população onde eles estão localizados.
O CTG Nova Querência, em Boa Vista, foi criado em 20 de setembro de 1981, data comemorativa dos 146 anos da Revolução Farroupilha. Durante seus 33 anos de vida, o CTG tem promovido a mescla cultural do Rio Grande do Sul e de Roraima. Esse espírito de união entre os estados vem desde a sua fundação, já que dentre os sócios fundadores havia a presença de roraimenses.
A Semana Farroupilha, promovida desde 1988 pelo CTG Nova Querência, é o seu principal evento anual. Milhares de moradores de Boa Vista e cidades próximas vão ao CTG para provar do autêntico churrasco gaúcho, além de ver as danças típicas e ouvir a música regionalista gaúcha, cuja gaita (acordeão) é seu símbolo máximo.
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